Um mundo onde muito pouco é necessário, quase tudo é suficiente. A world where very feel is necessary, almost everything is enough.
O capitalismo é um sistema político-religioso cujo princípio consiste em tirar das pessoas o que elas têm e fazê-las desejar o que não têm – sempre. Outro nome desse princípio é “desenvolvimento econômico”. Estamos aqui em plena teologia da falta e da queda, da insaciabilidade infinita do desejo humano perante os meios materiais finitos de satisfazê-los. A noção recente de “desenvolvimento sustentável” é, no fundo, apenas um modo de tornar sustentável a noção de desenvolvimento, a qual já deveria ter ido para a usina de reciclagem das idéias. Contra o desenvolvimento sustentável, é preciso fazer valer o conceito de suficiência antropológica. Não se trata de auto-suficiência, visto que a vida é diferença, relação com a alteridade, abertura para o exterior em vista da interiorização perpétua, sempre inacabada, desse exterior (o fora nos mantém, somos o fora, diferimos de nós mesmos a cada instante). Mas se trata sim de auto-determinação, de capacidade de determinar a si mesmo, como projeto político, uma vida que seja boa o bastante. O desenvolvimento é sempre suposto ser uma necessidade antropológica, exatamente porque ele supõe uma antropologia da necessidade: a infinitude subjetiva do homem – seus desejos insaciáveis – em insolúvel contradição com a finitude objetiva do ambiente – a escassez dos recursos. Estamos no coração da economia teológica do Ocidente, como tão bem mostrou Marshal Sahlins; na verdade, na origem de nossa teologia econômica do “desenvolvimento”. Mas essa concepção econômico-teológica da necessidade é, em todos os sentidos, desnecessária. O que precisamos é de um conceito de suficiência, não de necessidade. Contra a teologia da necessidade, uma pragmática da suficiência. Contra a aceleração do crescimento, a aceleração das transferências de riqueza, ou circulação livre das diferenças; contra a teoria economicista do desenvolvimento necessário, a cosmo-pragmática da ação suficiente. A suficiência é uma relação mais livre que a necessidade. As condições suficientes são maiores – mais diversas – que as condições necessárias. Contra o mundo do “tudo é necessário, nada é suficiente”, a favor de um mundo onde “muito pouco é necessário, quase tudo é suficiente”. Quem sabe assim tenhamos um mundo a deixar para nossos filhos.
Trecho do livro "Manual da contra história na anti-modernidade" do Bonzatto, pg. 153
Acabo de chegar do SP Market, na zona sul de São Paulo. Fui ver Lula, o Filho do Brasil. Aliás, quero ver em vários cinemas onde puder. A sessão anterior estava lotada e a que eu estava só não encheu por dois motivos: uma intensa chuva e um início de tumulto dentro do shopping.
Quando cheguei os alarmes do estacionamento estavam acionados. Olhei para todos os lados e, como não percebi sinais de incêndio, resolvi continuar no intento de assitir o filme no meio da galera.
Quando já estava sentada na sala de cinema, uma senhora subia as escadarias com sua bengala, acompanhada de sua filha - sentando-se ao meu lado.
Fazia quase 10 anos que esta senhora não ia ao cinema. Ela contou que houve muita correria na praça de alimentação, um estouro e uma parede caiu. Suficientes para que as pessoas saíssem em disparada para fora.
Um amigo meu afirma que as pessoas das periferias e interiores do país desenvolvem o que ele chama de "sabedoria de segundo grau". Gosto desta imagem. Esta senhora era uma delas. Ela disse que olhou para o teto do shopping, pensou na perna que a impossibilitava de correr e falou para a filha "vamos ficar sentadas e aguardar". Enquanto todos passavam por cima das mesas. A filha disse que houve um terceiro incidente no shopping, com vítima - segundo ela -, mas não chegou a ser noticiado.
Começa o filme, antes desta senhora dizer "Lula pode ter cometido seus erros, mas no cômputo geral, os acertos superam. Ele é o melhor presidente que este país já teve." Ao que eu respondi: ele é o meu presidente, do meu país, com muito orgulho.
Termina o filme e ela diz: a história está fiel ao que aconteceu. Perguntei por quê e ela: eu vivi em Diadema nesta época. E nasci em Pernambuco. Um dia fiquei presa numa farmácia, impossibilitada de sair porque a polícia não deixava, devido à greve dos metalúrgicos. Estão contando a minha história também.
Me despedi, entrei no shopping e tudo estava normal para um sábado. Não encontrei nada que sinalizasse desabamentos ou algo parecido com o relato delas. Talvez fosse trauma das pessoas por conta da outra vez.
Me sentei para checar minhas mensagens e ouvi pai, mãe e dois filhos, sentados no banco ao lado fazerem suas conjecturas. A mãe fala:
- Um tênis a R$ 400,00 e XXX prestações a R$ 39,00 eu tenho condição de pagar.
O pai: - É melhor não.
E ela: - Se fosse pra você, não hesitaria em pagar né. Como é pra mim, você não quer deixar.
Parecia que o pai do Lula, aquele homem amargurado, que bebia, bruto - como foi o meu pai também, alagoano - tinha saído da tela e estava ali ao meu lado.
É... o filme retrata o nosso país e uma parte do que é nossa gente, do que eu sou também como brasileira.*
*pretendo assistir este filme em Vitória, Recife e Fortaleza. Se conseguir, dividirei aqui.
Vamos Ubuntar? Um convite para cultivar a paz Lia Diskin A multiplicação da cultura de paz No ano em que o Programa Abrindo Espaços: educação e cultura para a paz completa oito anos, a Representação da UNESCO no Brasil tem a oportunidade de lançar uma coleção de sete publicações para sistematizar uma iniciativa de inclusão social e redução de violência com foco na escola, no jovem e na comunidade. O Programa Abrindo Espaços consiste na abertura das escolas públicas nos fins de semana, com oferta de atividades de esporte, lazer, cultura, inclusão digital e preparação inicial para o mundo do trabalho. Ao contribuir para romper o isolamento institucional da escola e fazê-la ocupar papel central na articulação da comunidade, o programa materializa um dos fundamentos da cultura de paz: estimular a convivência entre grupos diferentes e favorecer a resolução de conflitos pela via da negociação.
Resumo: Direcionando seus esforços para a consolidação de uma cultura de paz, especialmente entre os jovens, A UNESCO Brasil vem estimulando a abertura de escolas nos fins de semana como estratégia de incentivar atividades de esporte, cultura e lazer por meio do "Programa Abrindo Espaços: Educação e Cultura para a Paz". Após dois anos de implantação em escolas selecionadas por se localizarem em regiões que apresentam altos índices de violência, foi realizada avaliação dos impactos do Programa nos estados de Pernambuco e Rio de Janeiro. Com esse estudo, os autores recomendam não apenas a ampliação nos locais onde já se encontra implementado, como apontam para benefícios relevantes obtidos com a adoção do Programa.
Abstract: Directing its efforts in order to conquer a culture of peace, especially among the youths, UNESCO Brazil has been promoting the opening of schools on the weekends as a strategy to encourage sports, culture and leisure through the "Making Room Programme: Education and Culture for Peace" implemented in some schools that were located in high-risk regions of violence. After two years of establishment in selected schools, an evaluation of Programme impact has been made in the states of Pernambuco and Rio de Janeiro. The results of the evaluation were obtained using rigorous methodological procedures. With this study, the authors suggest that the Making Room Programme be expanded where it already exists and implemented in states and municipalities that are concerned with the different types of violence involving youths.