Histórias do meu país
Acabo de chegar do SP Market, na zona sul de São Paulo. Fui ver Lula, o Filho do Brasil. Aliás, quero ver em vários cinemas onde puder. A sessão anterior estava lotada e a que eu estava só não encheu por dois motivos: uma intensa chuva e um início de tumulto dentro do shopping. Quando cheguei os alarmes do estacionamento estavam acionados. Olhei para todos os lados e, como não percebi sinais de incêndio, resolvi continuar no intento de assitir o filme no meio da galera. Quando já estava sentada na sala de cinema, uma senhora subia as escadarias com sua bengala, acompanhada de sua filha - sentando-se ao meu lado. Fazia quase 10 anos que esta senhora não ia ao cinema. Ela contou que houve muita correria na praça de alimentação, um estouro e uma parede caiu. Suficientes para que as pessoas saíssem em disparada para fora. Um amigo meu afirma que as pessoas das periferias e interiores do país desenvolvem o que ele chama de "sabedoria de segundo grau". Gosto desta imagem. Esta senhora era uma delas. Ela disse que olhou para o teto do shopping, pensou na perna que a impossibilitava de correr e falou para a filha "vamos ficar sentadas e aguardar". Enquanto todos passavam por cima das mesas. A filha disse que houve um terceiro incidente no shopping, com vítima - segundo ela -, mas não chegou a ser noticiado. Começa o filme, antes desta senhora dizer "Lula pode ter cometido seus erros, mas no cômputo geral, os acertos superam. Ele é o melhor presidente que este país já teve." Ao que eu respondi: ele é o meu presidente, do meu país, com muito orgulho. Termina o filme e ela diz: a história está fiel ao que aconteceu. Perguntei por quê e ela: eu vivi em Diadema nesta época. E nasci em Pernambuco. Um dia fiquei presa numa farmácia, impossibilitada de sair porque a polícia não deixava, devido à greve dos metalúrgicos. Estão contando a minha história também. Me despedi, entrei no shopping e tudo estava normal para um sábado. Não encontrei nada que sinalizasse desabamentos ou algo parecido com o relato delas. Talvez fosse trauma das pessoas por conta da outra vez. Me sentei para checar minhas mensagens e ouvi pai, mãe e dois filhos, sentados no banco ao lado fazerem suas conjecturas. A mãe fala: - Um tênis a R$ 400,00 e XXX prestações a R$ 39,00 eu tenho condição de pagar. O pai: - É melhor não. E ela: - Se fosse pra você, não hesitaria em pagar né. Como é pra mim, você não quer deixar. Parecia que o pai do Lula, aquele homem amargurado, que bebia, bruto - como foi o meu pai também, alagoano - tinha saído da tela e estava ali ao meu lado. É... o filme retrata o nosso país e uma parte do que é nossa gente, do que eu sou também como brasileira.* *pretendo assistir este filme em Vitória, Recife e Fortaleza. Se conseguir, dividirei aqui. (Sorry, this time just in Portuguese)
Escrito por Cida Medeiros às 10h06 PM
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